Coitados dos viciados em carão. Não sabem o que é entrar em algum lugar de coração aberto, desprovidos de preconceito. Vivem encostados em paredes de baladas, com suas bebidas coloridas e olhar de desdém. Sua música toca, mas não é o remix predileto. A bebida é cara demais, fraca demais e o público é sempre insatisfatório. Pobres descontentes.

Por debaixo da maquiagem, a indiferença e o julgamento alheio excessivo. A necessidade constante de monitorar o movimento de quem participa da festa esgota qualquer possibilidade de diversão. Então, fica difícil entender o que motiva a sua saída em público. Mesmo assim, tentam nos enganar com seus sorrisos irônicos e comentários ao pé de ouvido com amigos da noite. Aqueles, que só se vêem em finais de semana e só se amam após três ou mais doses de vodka. Até clarear o dia.

Enquanto fingem estar se divertindo, nós fingimos que nos importamos com sua crítica. Sua importância para o evento possui a mesma energia de uma câmera de segurança, que registra o que acontece, mas não participa. Vira a cabeça, de um lado para o outro, sem realmente ver ninguém a não ser a si próprio, atraído pelo espelho.

É uma pena que o ego de alguém possa estar tão elevado que não desça ao nível dos normais. Nem que seja para se notar melhor que a maioria ou pelo menos enxergar-se diferente. Se fosse assim, talvez aprendesse a ver que, enquanto rotulam e confabulam sobre reputações de outros, perdem a oportunidade de participação. Uma chance de conhecer pessoas novas e ser resgatado dessa mesmice, desse tédio constante. Diminuir os bocejos e a monotonia.

Não é preciso retornar a eles a mesma inquisição compulsória a que submetem aos outros. Não há vingança, ressentimento. Muito menos pena. Só espero que possam recuperar o tesão pela diversão, que encontrem sorrisos maiores em algo. Esperar que a noite possa deixar de ser monocromática, deixar de ser in ou out. Deixar discriminação lá fora, para os imbecis intolerantes e o vazio para quem realmente não tem nada a dizer por falta de conteúdo.

Quem puder sair da área vip que criou em torno de si mesmo e descer para o play, pode encontrar mais que álcool e música. Pode esbarrar em pessoas e ser transformado por elas. Menos carão, mais carinho.

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