Vou acabar deixando…

Eu disse que não ia escrever, mas cá estou. Disse que não ia deixar, mas vou acabar deixando, quando você deitar do meu lado e não tiver mais ninguém do lado de fora do carro, depois de passar o trinco duas ou três vezes, o que der menos revés. Talvez até mesmo a janela desapareça enquanto estivermos distraídos com alguma inutilidade fascinante, como a quantidade de pêlos do meu braço ou o preto que tem cor de azul do meu carro. Sabia que você ia reparar também, como quando penso que o céu está da cor que você gosta de desenhá-lo ou que posso adivinhar como é seu sorriso.

Eu sei que não sei uma porção de coisas, mas das que sei, me distraio fazendo uma lista pra passar o tempo que não posso passar brincando com seus dedos como se casassem com os meus, um de cada vez, e nessa lista tem número um você no meu colo perdida no teto e eu falando alguma coisa sobre eu não saber usar o carro, sem prestar atenção, porque afinal de contas, como pode mesmo o nosso cabelo estar tão bagunçado?; número dois você tentando me distrair pra me fazer cócegas – sem conseguir, é claro, onde afinal foram parar os momentos em que eu não estou olhando pra você?; número três o dia clareando, escurecendo, clareando, escurecendo, sem a gente se dar conta; número quatro “como ela faz isso com os dedos do pé?” número etc, sendo “número etc” apenas uma variável representativa do número praticamente infinito de itens de uma lista interminável, como toda lista de “motivos para viver” deve ser, ao menos as de verdade. E por verdade, quero dizer as que deixam as pessoas se sentindo assim, embora duvide que no momento possa haver alguém mais feliz do que eu.

Sei que vai mexer nas minhas coisas sem pedir, e que eu não vou me importar, mas por favor não abra a gaveta à esquerda, guardei os medos lá antes de você chegar. Ainda bem que atropelamos os seus naquele sinal amarelo, menos coisa para pendurar no armário. Notei que assim você ficou mais bonita ainda. Como se fosse possível. Mesmo que você estivesse de nariz entupido, não conseguiria pensar que de todas as coisas, se pudesse escolher uma para ser verdade, seria eu e você, tentando não rir tanto de quem disser “e ai?”. Será difícil aceitar que todos mentiram esse tempo todo e que acordar todos os dias de manhã vale, sim, a pena, mesmo se um meteoro antigir nossas cabeças ou toda a fauna e flora do planeta desaparer; poderemos finalmente terminar aquelas palavras cruzadas e contar vaga-lumes sem confundi-los com as estrelas.

E um dia precisamos reservar pra procurar a companhia especializada em casas dentro de bolhas, e se não acharmos uma que caiba uma casa dentro, espero que não esteja cansada de ouvir “mas não tem problema, porque estaremos juntos” (um daqueles medos, ainda bem que a tal gaveta está meio emperrada e não vai sair nada de lá). Você fala que ainda vai ter muita coisa a ser dita, mas eu duvido. Imagino que nessas horas os segundos passem muito rápido para caber palavras; acho que vou preferir preenche-los com carinho e apnéia, se não se importa. Menos risco de desastre, já que em minhas mãos as coisas costumam quebrar. Gostaria que pudesse ver o cuidado com que te seguro, para que não escape quando estiver distraída tentando calcular quanto tempo passou desde que esquecemos de lembrar que tem um mundo lá fora, com pessoas, lugares, rotinas, oxigênio e mais uma porção dessas futilidades que não significam mais nada porque a porta está trancada e você está aqui.

Claro que diminuo o ar condicionado. Lets get lost.

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