Pretty soon we’ll be old

Eu quero viajar de carro com você. E não precisa ser nos Estados Unidos, mas lá é mais legal porque dá pra comprar um conversível baratinho. E que tipo de viagem sem rumo não acontece dentro de um conversível ou do vagão de carvão de algum trem? Mas é, eu não gostaria de ir no vagão de carvão. Não são mais os anos 50, então os caras não seriam aqueles caras com bronzeados cor de cobre e macacões jeans com o suor condensando na testa. Não convenci? Merda. Er, é. Na verdade precisa ser lá sim.

Aí também perderia todo o glamour. Eu li on the road e não gostei. Acho que o kerouac é prolixo demais e deveria economizar adjetivos. A espontâneidade e ‘fúria’ do momento se perderam pra mim, em meio a descrições de 5 linhas saturadas de advérbios sobre um simples gole no uísque. Enfim. Irrelevante. Voltemos ao nosso conversível azul-calcinha. Er… não avisei que ia ser azul calcinha? Desculpa, mas tem coisas nas quais vou ter que ser irredutível. Por falar nisso, seria bem legal se você ficasse bonita de ray-bans. E também é bom eu já avisar que pretendo cortar as unhas do pé no painel do carro e passar o resto do tempo inteiro de botas de cowboy. E que também eu detesto usar botas porque sinto calor nos pés, então é bem capaz que eu reclame sobre as tais botas bastante, mas você vai ter que me lembrar que faz parte, ou me distrair apontando coisas legais, do tipo ferrugem, alguma bola de tumbleweed ou alguma placa com aquelas fontes de filme de cowboy.

E aí vamos passar uns dois meses respirando poeira, suando seco, ficando com o rosto corado por causa do sol e comendo exclusivamente ovos sunny-side up com torradas e bacon em diners adjacentes à strip-clubs e motéis. Podemos brincar de quem consegue inventar as piores músicas country durante aqueles pedaços gigantes de estrada que o rádio não funciona. E deixar pra ouvir fitas só quando for de madrugada, aí a gente ouve alguma música francesa. E você vai ter que tirar foto ao lado de absolutamente todos os papéis de parede horrorosos de motel que a gente ficar pelo caminho, e tomar incontáveis porres comigo.

E quando a estrada acabar e a gente estiver olhando pro oceano, a gente estaciona o carro e pula de roupa. Aí a gente pega nossas tralhas, acha um apartamento limpo e branco. Toma banho até todas as camadas de sujeira de estrada descerem pelo ralo, e mora lá uns tempos. Eu posso trabalhar em algum restaurante, e você pode trabalhar em alguma locadora. Talvez numa loja? Até juntarmos dinheiro de novo. Aí podemos ir pra frança. Mas essa história eu te conto amanhã, ok? Enquanto isso, a gente deita aqui no colchão novo e brinca com os dedos do pé um do outro ouvindo chamberlain. E aí eu vou dizer que pretty soon we’ll be old, and that’s ok.

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