eu, grande demais pra me esconder nas frestas
eu, e os pobres planos incompartilhados
eu, submergindo de sonhos rasos
eu, e as mentiras, tantas,
eu, e o céu-que-grita, cor de laranja
eu, e a poeira de velhos sapatos esquecidos
eu, e o passado soterrado, as paisagens mortas
eu, e o mistério do eterno recomeço
eu, e o súbito medo, no escuro
eu, e as inconfessidades
eu, e as palavras inventadas
eu, e o cachorro morto na estrada
eu, e o gato no colo
eu, com pena de matar as baratas
eu, barato
eu, e as gavetas reviradas
eu, com as mesmas saudades de sempre sempre sempre.
eu, e o mar
eu, e o meu mundo míope, em blur
eu, e os setenta e cinco centavos de real no bolso
eu, e as cores desbotando
eu, e a alma furta-cor
eu, os raios, os trovões.no fim, sobramos eu e meu mundo.
e eu nunca estou sozinho.
